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APÓS APRESENTAREM JUNTOS O EXPERIMENTO CÊNICO “NÃO É LÁ?”, GRACE PASSÔ E RICARDO ALEIXO FALARAM SOBRE SUA RELAÇÃO COM  FAN-BH

24/11/2019

Dentro do seu ciclo de atividades formativas, a décima edição do Festival de Arte Negra de Belo Horizonte – FAN-BH promoveu, na última sexta-feira, dia 22, o debate “Transmigração e Transatlanticidade: Práticas Linguageiras Sonoras e Faladas na Musicalidade Artística Negra”, com Eduardo Brechó (SP) e Letieres Leite (BA). Assim como aconteceu nos encontros anteriores, uma performance foi apresentada antes da fala dos convidados – no caso, o experimento cênico “Não É Lá?”, concebido e executado por Grace Passô e Ricardo Aleixo. Ao fim do debate, Grace e Ricardo, que também participaram da conversa, responderam a duas questões ligadas à relação que eles mantêm com o festival.

Veja abaixo a entrevista

O que representa para você estar participando desta  edição do Festival de Arte Negra de Belo Horizonte?

Grace Passô: Para mim dá uma sensação de que a gente continua conseguindo ampliar, expandir os espaços de pensamento, nossos espaços performáticos, artísticos. E a gente procura, continua trocando nossos esforços e colocando em prática, para que esse campo artístico, das existências negras, continue existindo cada vez mais forte.

Ricardo Aleixo: Estou muito contente, porque, tendo sido um dos curadores da primeira edição do Festival de Arte Negra, eu me impus sempre, enquanto limite ético, não participar como artista. E depois, nas outras edições, depois de 2013, eu nunca fui convidado como artista, o que me gerou, confesso, um certo complexo até, porque, poxa, me chamam para tantos lugares e Belo Horizonte não quer saber de mim? Sério, isso me trouxe muitas questões, mas agora foi um banho, simbolicamente muito rico, porque eu estava suando muito e Grace me enxugando, então, não tinha forma melhor de estrear no FAN como artista do que junto com Grace Passô no palco. O sentimento é de realização.

Pensando no FAN-BH como vitrine e como plataforma, que avaliação você faz do atual panorama das artes negras no Brasil?

Grace Passô: O que existe de mais potente nas artes contemporâneas brasileiras hoje diz respeito às artes negras. Não que isso seja novo, mas acho que existe uma produção artística negra no Brasil e hoje não tenho dúvida de que é um farol, que não só aponta para frente, mas que cria bases estruturantes fundamentais para a arte contemporânea brasileira. E, para mim, a arte contemporânea brasileira está intimamente ligada às artes negras no Brasil.

Ricardo Aleixo: Eu defendia, enquanto curador do FAN, que arte negra é um conceito operacional e não um finalismo. Eu tenho visto e lido muita coisa que tem sido feita a partir desse princípio. Gosto muito de umas coisas, gosto menos de outras e não gosto nada da grande maioria. Me parece que uma vantagem do momento, que se torna muito facilmente desvantagem, é a mescla da perspectiva criativa com a perspectiva de militância. Gosto muito de pensar que os artistas cada vez mais tomam para si a responsabilidade de pensar na sociedade e no tempo em que vivemos.