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AS MULHERES PROTAGONISTAS NO FAN 2017

24/11/2019

Na nona matéria especial de resgate da memória do Festival de Arte Negra de Belo Horizonte, um olhar especial sobre a edição de 2017, que teve como destaque, a curadoria formada apenas por mulheres. O FAN-BH, naquele ano, também trouxe uma maioria de criadoras, artistas, debatedoras mulheres de diversas partes do país. “O protagonismo de todas as ações do festival foi feminno”,lembra a atriz Carlandréia Ribeiro, que compôs a curadoria juntamente com a musicista, DJ e pesquisadora Black Josie e com a produtora Karú Torres. Ela destaca a presença, na programação, de nomes como a acadêmica e rainha conga Leda Maria Martins e da escritora Ana Maria Gonçalves, autora do livro “Um Defeito de Cor”.  A programação musical contou com shows de Zezé Motta, Ellen Oléria e Karol Conká, que fez uma concorrida apresentação no Parque Municipal.

“Foram esses momentos, esses encontros de mulheres, essa coisa da afetividade negra e feminina que marcaram aquele FAN”, reforça Carlandréia. “Eu sou suspeita para falar, mas fiquei bastante satisfeita e acho que foi legal valorizar essa presença feminina. As atrações âncoras foram exclusivas de mulheres negras, e foi muito importante para evidenciar e colocar em discussão essa presença”, acrescenta Black Josie. Ela destaca, também, o espaço aberto para a música erudita na programação, com a apresentação da ópera “Porgy and Bess”, no Parque Municipal, e com dois concertos em memória de Joaquina da Lapinha, a primeira cantora lírica negra brasileira, que foi a homenageada da edição 2017.

“Tem a coisa dos tambores sagrados, que é algo muito presente no cotidiano dos povos africanos e é muito importante mesmo, mas tem também na África um outro lado, outros instrumentos. A música erudita, quando a gente pensa em cultura negra, é algo que fica um pouco distante. E no Brasil antigo, no Brasil Império, a população negra era protagonista na música erudita. Foi uma presença que a gente perdeu e eu, como curadora, fiz essa proposição de ações dentro da música erudita”, salienta Black Josie.

Algumas ações inauguradas na 8ª edição do FAN-BH, em 2015, voltaram à baila na 9ª edição – casos, por exemplo, do Fanzinho, dedicado ao público infanto-juvenil, e do Ubuntu, o encontro multi-religioso que reuniu em debate várias lideranças representantes das mais diversas crenças.

Carlandréia entende que a edição de 2017 impactou de forma muito significativa a população de Belo Horizonte. “Acho que reverberou de forma muito positiva, porque foi muito diversificado. Foi marcante a presença da juventude em todas as atrações. Acho que impactou de forma muito potente a cidade e a gente precisa cuidar para que isso seja cada vez maior, mais descentralizado, com mais atividades e programação variada”, diz.

“Para além do processo de 400 anos de escravização e para além do genocídio que não parou nesses anos todos após a abolição, negros e negras continuam produzindo a sua arte, produzindo conhecimento, então eu acho que, muito além do espetáculo e de tudo isso que é proposto, o FAN demarca um território de resistência e de beleza, apesar do racismo estrutural que está aí colocado”, acrescenta a atriz.