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PENSAMENTO DE MARIA BEATRIZ NASCIMENTO PRESENTE NA DÉCIMA EDIÇÃO DO FAN-BH

24/11/2019

 A obra da historiadora, professora, roteirista, poeta e ativista pelos direitos humanos de negros e mulheres Maria Beatriz Nascimento (1942-1995) fundamenta o eixo de reflexão “Território Memória”, que norteia os debates e as ações do 10º Festival de Arte Negra de Belo Horizonte – FAN-BH. Ela foi escolhida pelas curadoras do festival – Aline Vila Real, Grazi Medrado e Rosalia Diogo – como inspiração para a construção desta edição. Neste sábado, dia 23, às 19h, no Ojá, montado no CentoeQuatro, acontece o lançamento do livro “Beatriz Nascimento: Quilombola e Intelectual – Possibilidade nos Dias de Destruição”, da Editora Filhos da África.

A obra é um compilado dos escritos de Beatriz Nascimento, com apresentação de sua filha, Bethânia Nascimento, prefácio de Anin Urasse e introdução da historiadora Raquel Barreto. Na mesma ocasião, a Editora Filhos da África lança um outro título, “Lélia Gonzales: Primavera para as Rosas Negras”. Ambos são coletâneas organizadas e editadas pela União dos Coletivos Pan-Africanista – como são, de resto, praticamente todos os títulos da Editora Filhos da África.

No lançamento, estarão presentes dois representantes da editora, Valdemar Santos e Nina Santos, e também o filósofo e historiador Marcos Cardoso, para apresentar as duas obras ao público. Beatriz Nascimento pesquisou, escreveu e produziu intensamente durante três décadas, deixando contribuições importantíssimas. Entres seus objetivos, estava pensar a História do Brasil a partir da perspectiva negra, enfatizando a “agência”, isto é, a autonomia e a subjetividade negra. Nascida em Sergipe, ela estava particularmente interessada em pensar novas epistemologias que dessem conta da experiência e especificidade históricas de homens e mulheres negras.

Valdemar Santos destaca que a obra de Beatriz Nascimento se distingue na medida em que elabora “uma nova forma de pensar os quilombos, não como o lugar para onde os negros escravizados fugiam, mas como sistemas sociais e políticos alternativos, baseados em valores próprios, distintos dos valores dominantes no período”. Nas palavras de Raquel Barreto, o quilombo, hoje, é uma metáfora, um verbo, um imperativo e uma tradição. Uma forma de estar no mundo pautada pela junção de saberes do corpo, do intelecto e da alma. O quilombo, hoje, é um conhecimento verdadeiro, de natureza científica, elaborado a partir do acúmulo de experimentações passadas que construíram um repertório de resistência, tradições, valores sociais, culturais e políticos. Vem desse pensamento a epígrafe que norteia o 10º Festival de Arte Negra de Belo Horizonte – FAN-BH: “A Terra é o meu quilombo. Meu espaço é meu quilombo. Onde eu estou, eu estou. Quando eu estou, eu sou”.

Maria Beatriz Nascimento também é conhecida pelo documentário “Ôri” (1989), dirigido pela socióloga e cineasta Raquel Gerber. O filme será exibido neste domingo, dia 24, às 17h30, no MIS Cine Santa Tereza, em sessão comentada por Tatiana Carvalho. “Ôri” documenta a trajetória dos movimentos negros no Brasil entre 1977 e 1988, sendo o quilombo sua ideia central, abordando temas como a corporeidade do negro, a perda da imagem que atingia africanas e africanos escravizados e seus descendentes em diáspora e a situação das mulheres negras no Brasil, analisando sua condição social inferior devida ao amálgama de heranças escravistas com mecanismos racistas.

Sobre o documentário, a própria Beatriz Nascimento disse: “Trata-se de filme fundamentado em minha trajetória de vida, enquanto mulher, enquanto negra e especializada em História do Brasil, assim como minha inserção no movimento político de afirmação da negritude”.